Canto dos últimos gritos

A via de mão dupla da opressão são dois laços de compreensão: 

a loucura assassina  

o homem sem coração 

Quando o homem abre mão de sua liberdade

abre mão da sua libertação

e, por isso, não há maior conquista que o ser humano… 

consciente de sua 

perpetuação, pois é humano antes de ser 

– compreensão – 

À luz do mundo restam algumas tensões:

a luta que urge

e

a solidariedade em

cessão.

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Quando aprender não basta mais…

   Você está caminhando durante muito tempo por aqui. Conhece parte do mundo, a parte que lhe pertence, a parte que lhe acolheu, a parte que você mantém relações de transformação. Você conheceu algumas pessoas, em meio ao círculo familiar inicialmente, depois nas esferas das amizades, ou simplesmente em situações inesperadas. Você construiu identidades, considerou novos caminhos, planejou novos sonhos e observou a realidade. Você aprendeu que tudo é passageiro, até mesmo essa vã certeza. Mas você hoje tropeçou de novo.  E eis o dolorido de escutar: de novo. Os demais caminhos  que, até então agora, ficam no passado, adquirem a sombria penumbra do desalento, uma vez que a esperança alimenta-se unicamente de força interior em contrapartida aos movimentos da realidade material. Os esforços, e portanto meios de perseverança, aparentemente foram inúteis, “novamente em vão”, e você sente o ferimento do pessimismo. Eis que a obrigação bate à porta. Eis o desafio: não deixar-se abater pelo cansaço. É hora de levantar de novo.

   Desafiante, porém tentador declínio, pois é hora de abstrair dessa queda um sentido maior que o tropeço em si, pois para cair é necessário estar além da inércia. Mas cair de novo lhe causa um profundo agouro, pois as quedas lhe conferem uma coleção no modelo de um arsenal típico de guerra. Todavia, eis você de novo; encorajado a refletir: qual infortúnio procedeu agora? Ou precedeu-me um erro? Como o céu escurece ao anoitecer, lhe basta as indagações se a realidade lhe demonstra dialética e os movimentos não cessam apenas por você desejar questionar-se, após lamentar-se pelo rumo que lhe fizera tropeçar. Cai a noite e, já de pé, lhe sussurra a consciência: aprender já não basta mais.

   Se lhe custara o caminho inteiro até cá, subindo e descendo ladeiras, segurando firme nas cordas à beira do corte e levantando após tropeços imensos, aprender é só mais uma praxe de um processo que é tão mais histórico do que pessoal, pois as relações lhe influem no momento que não pode percebê-las, mas adquire seu recado. Refletiu, custou a crer. Mas voltará a caminhar, pois aprender já não basta mais. Precisa mesmo é acreditar. E lutar. Aprenderá sem hesitar.

Crônica sobre a ilusão carnal

Este é o resumo do post.

 

— Mas é verdade mesmo que o filho do Lula tem relação com a Friboi? — questiona a senhora, extremamente interessada na resposta, cujo teor não consideraria analisar num segundo plano.
— Mas é claro! Verídico! — afirma outra mulher, um tanto mais nova, porém não tão distante.
— Mas onde esse mundo vai parar? — revolta-se a primeira, cabelos brancos e língua acesa.
— Você viu aquela propaganda que o cara recusa a carne da Friboi?
— Vi sim — risos, muitos risos — Ao contrário daquela que ele diz “nós só trabalhamos com Friboi!”, essa é realmente verdadeira…
— Pois é, menina! O cara diz sobre não sei quantos por cento foi descontado de não sei lá o quê (sic)… Um absurdo!
— E é verdade que o Lula tá se metendo a ser candidato de novo? — moveu-se um pouco na cadeira, num alarde de inconformidade.
— Dizem que sim, né… Ele é muito ganancioso.
— Olha, Deus (sic) vai me perdoar, mas eu só vou sossegar quando eu o ver atrás das grades! — grunhiu.
— Mas o que adianta, ele não vai preso não! — tentou desiludir a outra, num acesso de justiça tão justa quanto o mais justo pode presumir — É como meu filho fala: a Dilma não vai presa por falta de prova… O Lula é a mesma coisa.
— É porque ele usa terceiros, não é? — propôs a hipótese que justifica a inocência bandida do ex-presidente.
— Mas é claro! — afirmou a mais nova — Ele podia só ficar cuidando da doença e deixar a gente em paz! Já roubou muito, muito… Dá pra enriquecer a família inteira…
— Eu não agüento mais! Não temos mais para onde fugir…
Um senhor grisalho, alto, entra na conversa de forma muito serena, largando uma revista pelo sofá.
— Minha esposa estava comentando comigo um dia desses sobre um presidente que é dono de um apartamento caríssimo no exterior… Sabe, fiquei abismado o quanto esses políticos possuem a cara de pau pra roubar! — protestou com muito júbilo.
— Não acredito! Que salafrário! Como isso não chegou na mídia?! — irritara-se a mais velha, em mais um acesso de ventania odiosa.
— Não vi nada não… Não passou na tevê… — justificou a mais nova, fazendo-se de desentendida sobre o próprio suposto entendimento.
— Pois é. Além do mais, o nome dele envolve muitas outras denúncias abafadas e com provas. No alto dos meus 70 anos, um velho como eu não pode mais ficar passando nervoso, mas isso não tem cabimento!
— Então por que não o prenderam? — urrou, querendo espetáculo, a mais velha, carregando a língua para protestar contra a corrupção que tanto odeia.
— Deviam levar esse do PT e todos os petistas pra cadeia! — sugeriu tempestuosa a mais nova, ao passo que o senhor levantava-se.
— Ele não é do PT. — sorriu o senhor, sagaz, porém convicto.
— Pelo amor de deus! — irritara-se a mais velha. — Então a corrupção é generalizada?! — berrou, como quem havia sido desposada da verdade.
— Ele também é dono da Friboi? — sugeriu a mais nova, nadando em certezas ilesas.
— Não, mas ele é ex-presidente. — rumou-se à porta o velhinho.
— Então é o Lula! Safado!… — a mais velha esboçou a expressão do “eu já sabia!”, adivinha como sempre foi.
— Não. — afirmou.
— Então quem é? — vidrada, a mais nova o questionou, faminta pelo término do tal mistério.
— O Fernando Henrique Cardoso. — o senhor afastou-se da porta, retirando-se.
Um estrondo muito forte ecoou pelo salão:
— Chama o Samu! A senhora teve um infarto!